O voto por afinidade: quando a popularidade substitui a competência



Nos últimos meses — impulsionados pela preparação para as eleições de 2026 — observamos uma movimentação estratégica dos partidos políticos para intensificar a filiação de influenciadores digitais.

A lógica por trás dessa escolha é direta: converter seguidores em votos.

Em um cenário altamente competitivo, a popularidade nas redes sociais tornou-se um ativo eleitoral valioso, capaz de reduzir custos de campanha e ampliar o alcance das narrativas.


No entanto, esse fenômeno expõe uma fragilidade preocupante no comportamento do eleitorado: um padrão de escolha cada vez menos pragmático.


Para uma parcela significativa dos eleitores, a visibilidade passou a pesar mais do que a capacidade técnica. A familiaridade supera a qualificação, e a identificação emocional — muitas vezes construída por narrativas simplificadas ou discursos de indignação — se sobrepõe à análise de propostas, histórico e formação.


Consolida-se, assim, uma lógica perigosa: quem chama atenção conquista espaço; quem gera engajamento conquista votos.


E os partidos, atentos a essa dinâmica, passam a operá-la — não para transformá-la, mas para explorá-la.


A ilusão da representatividade digital


Produzir conteúdo, opinar com firmeza ou criar senso de pertencimento não equivale a compreender a complexidade da gestão pública. A política exige domínio de áreas como orçamento, planejamento e estratégia — competências que não se desenvolvem, necessariamente, no ambiente digital.


A confusão entre influência e capacidade ajuda a explicar uma contradição recorrente: elegem-se candidatos por projeção ou carisma, mas exige-se deles, posteriormente, um desempenho técnico que nunca fez parte de sua trajetória.


Essa dissonância gera frustração e descrédito — não porque a política falhe isoladamente, mas porque as expectativas depositadas nos eleitos não correspondem aos critérios que orientaram sua escolha.


As consequências na prática


Quando a competência deixa de ser um fator determinante, os impactos deixam o campo abstrato e se materializam no cotidiano, especialmente na qualidade dos serviços públicos.


A gestão pública exige preparo técnico e capacidade de execução. Ignorar esses requisitos na hora do voto é, na prática, comprometer decisões que afetam diretamente a vida coletiva.


Ainda assim, muitos eleitores não se perguntam se os candidatos possuem formação adequada, experiência administrativa ou histórico consistente. O resultado é previsível: problemas persistem, soluções não se concretizam e oportunidades se perdem.


Conclusão


A democracia não se sustenta apenas no direito de escolher, mas na qualidade das escolhas.


Votar não deve ser um ato impulsivo nem uma extensão do comportamento digital. Exige reflexão, senso crítico e responsabilidade.


Se o voto continuar sendo tratado como um clique, os resultados também serão superficiais — e, fora das telas, é a sociedade como um todo que arca com esse custo.

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